❝ Semana passada você marcou com tua namorada, com teu cliente, e com teu dentista. Você está fazendo seis meses com tua garota, está a um passo de fechar o contrato com aquele cliente chatinho, e está terminando seu tratamento dentário. Prometeu que não faltaria, nem atrasaria para o jantar, disse que dessa vez, o trabalho não iria vir primeiro que sua vida pouco social; pelo menos não quando o assunto é a mulher da sua vida á alguns meses. Precisa abastecer o carro, fazer uma faxina na casa, limpar a piscina e comprar a ração do cachorro. Precisa fazer as compras de casa, checar seus e-mails e visitar seus pais no campo. Precisa lavar as roupas, comprar algumas novas, e se livrar de outras. Sem contar que também precisa ler aquele livro que está na estante do quarto. Aquele que ficou pela metade porque você estava cansado demais para se dedicar a leitura. Sua namorada começou a te pressionar, dizendo que está na hora de dar um passo á frente. E começou também a jogar aquelas indiretas de “estou ficando velha, e preciso me casar, ter meus filhos e formar minha própria família”. Você, como de costume, fica assustado, dá aquele sorrisinho amarelo, e diz que concorda. Se lembra que precisa lavar seu tênis para ir á academia, pagar sua conta de luz, e comprar um celular novo. Já é quinta-feira, e a semana está quase no fim, você ainda não tirou um tempinho para descansar, e muito menos para fazer todas essas coisas. Sábado sua mãe comemorará 49 anos, e você ainda não comprou seu presente e nem menos sua passagem. Seu chefe pediu para que tomasse conta do escritório na sexta-feira, e você não pode simplesmente negar esse pedido. Afinal, ele é seu chefe. Você ficou de buscar seu sobrinho no colégio as 17:00hrs, e ainda está enrolado com a toda aquela papelada totalmente desorganizada. Sua secretaria está de tpm, e deixou todo o trabalho para você. Falta apenas 10 minutos para seu sobrinho ser liberado, e você está a 15 minutos de distância do colégio. Lembra que seu aluguel venceu á quatro dias atrás, que você esqueceu sua camisa branca na lavanderia, e que é esta noite o jantar marcado com sua namorada. Você consegue sair mais cedo do escritório, liga para seu sobrinho para justificar o atraso, sai apressado á caminho do colégio, e morre atravessando a avenida. Como é? Morre? Isso não estava no contexto, não é? Nunca esteve nos seus planos, mesmo sabendo que um dia isso aconteceria. Você passou anos e anos em um colégio, metendo a cara nos livros, se matando para aprender as formulas de matemática, química e física. Mas foi em frente. Passou noites em claro estudando para prestar vestibular, mesmo não tendo certeza absoluta sobre oque gostaria de fazer realmente, aprendeu a fazer mil e uma coisas. Mas continuou caminhando. Entrou em um péssimo emprego, com um péssimo patrão, em um péssimo lugar. Mas ainda sim, aguentou firme. Escolheu a faculdade, ao invés da boa vida. Escolheu se sacrificar de todas as maneiras, para ser alguém na vida, e quando estava quase chegando lá, simplesmente morreu. Morreu sem dançar com a garota mais bonita do baile, sem bater no fodão do colégio, sem comprar a casa dos sonhos, e sem se casar com a mulher de sua vida. Morreu sem fazer a faxina da casa, sem arrumar seus documentos, sem tirar a carteira. Sem decorar sua música favorita, e sem alimentar seu cachorro. Ok, hora de tirar um tempão só para você. Nada de correria, de trabalho, nada de faxina, e muito menos de sobrinhos, chefes e de secretários chatos. Morrer é mesmo uma ordem natural da vida, mas ao mesmo tempo, desfaz toda ela. Porque definitivamente, morrer é um exagero, assim como viver é uma perda de tempo.
—
Uma pequena adaptação do texto de Pedro B. Uma piadinha macabra sobre quão clichê a vida pode ser. Alexandre Avilla. (via
d-estruindo)